Comer dá saudade

No dia 30 de janeiro, comemora-se o Dia da Saudade no Brasil e esse sentimento tem a ver com gosto

Na  música, na literatura e no cinema, encontramos fragmentos que demonstram a ligação entre comida e recordação.  Para o cantor e compositor Luiz Gonzaga, por exemplo, a saudade “amarga que nem jiló”.  Já o escritor Eça de Queiroz associa a saudade com a alegria pelas coisas simples e substanciais. No livro “A cidade e as serras”, o personagem português Jacinto, de Tormes, ao retornar a sua cidade-natal curou-se da frustração da moderna Paris do século 19 com uma refeição frugal. Esbaldou-se com frango dourado assado no espeto, a salada que colheu na horta e o vinho produzido na região. O amigo José Fernandes observou surpreso apetite de Jacinto: “parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim cada travessa, em louvores mais copiosos”.

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Essas lembranças ficam guardadas na memória, campo que é acessado pelo paladar e olfato. Basta sentir provar um bolo ou sentir o cheiro do refogado de cebola e alho suando na panela. Com essa faísca, o baú de recordações é acionado, as imagens dançam com frescor. O escritor francês Marcel Proust fez literatura a partir do único bem que possuía: a memória. Ele vivia recluso num quarto, em Paris, por ser asmático. Aprendeu a acreditar no poder da arte com o filósofo Henri Bergson, e foi um dos primeiros a internalizar sua filosofia. Bergson sustentava que a realidade é entendida melhor subjetivamente; e, suas verdades, acessadas intuitivamente.

Com este pensamento, Proust rompeu com a literatura do século XIX, que privilegiava a matéria por meio da descrição detalhada de objetos em lugar dos pensamentos. Na opinião do escritor, ao invés de se aproximar do real, este tipo de literatura afastava-se, talvez por tender a objetividade em detrimento da subjetividade. A resposta ao conflito do autor chegou na forma inesperada de um bolinho amanteigado de limão em forma de concha. Eis o pedacinho de matéria que revelava “a estrutura de seu espírito”:

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes às vicissitudes da vida (…).

Depois desta experiência, Porust recobrou a memória e escreveu a obra “Em busca do tempo perdido”, considerada um dos principais clássicos da literatura mundial.  O francês teve “muita intuição sobre a estrutura do cérebro” ao descobrir que, intuitivamente, os sentidos do olfato e do paladar possuem uma carga de memória singular. A conclusão é do escritor norte-americano especializado em neurociência, Jonah Lehrer, autor do livro “Proust foi um neurocientista”. Lehrer afirma que atualmente a neurociência sabe que o escritor estava certo.

Rachel Herz, psicóloga da Universidade de Brown (EUA), escreve no artigo “Testando a hipótese de Proust”, citado por Lehrer, que esses sentidos são exclusivamente sentimentais. Ambos são os únicos que se conectam diretamente com o hipocampo – o centro da memória de longo prazo do cérebro. A visão, o tato e a audição são primeiro processados pelo tálamo – a fonte da linguagem e a porta de entrada para a consciência. Por isso são bem menos eficientes em trazer à tona nosso passado. O autor de “Em busca do tempo perdido” intuiu esta autonomia. Usou o sabor da Madeleine e o aroma do chá para dar vazão a sua infância.

A romancista irlandesa Edna O’brien conta no artigo “Os fantasmas do paladar: recapturando os sabores da infância” (Ed. DBA), que “a comida é um gatilho emocional para nos lembrarmos de coisas há muito tempo esquecidas, presas na memória”. Ela cita o escritor francês Charles Baudelaire para retrucar a opinião dele que atribuía memória ao tato. Para Edna, assim como para Proust, o paladar tem muito mais. E justifica seu posicionamento com o bolo de laranja da mãe:

Se eu provo bolo de laranja, não é simplesmente aquele que estou comendo, é o bolo que minha mãe fazia quando as coisas estavam relativamente bem. Penso nisso, não como comida, (…), mas como a essência de um tempo, de um lugar, de sol e chuva, de alegria ou conflito.

saudadeNo cinema, Anto Ego – ferrenho crítico gastronômico do filme Ratatouille – também foi transportado para um outro tempo por meio da comida. Ao provar um simples cozido de legumes lembrou-se da mãe preparando a receita, quando era menino. Em sua crítica, ele garantiu que tanto o prato como quem o preparou desafiaram sua percepção sobre gastronomia. “Na poesia, o português Fernando Pessoa associa a saudade àqueles momentos de comunhão e de sociabilidade com os amigos, que muitas vezes ocorrem em volta da mesa”.  Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano e do companheirismo vivido.

A cronista brasileira gastronômica Nina Horta, também estreita o vínculo entre saudade e paladar. Nina é vencedora do prêmio literário Jabuti de 2016 com livro “O  frango ensopado da minha mãe”, na categoria Gastronomia. Para a autora,

comida de alma é aquela que conforta, escorre garganta abaixo, quase sem precisar ser mastigada na hora da dor, de depressão ou de tristeza pequena. (…). Dá segurança, conforta a alma, lembra a infância e o costume.

Comida é memória, está guardada no gosto e no cheiro da comida. Reencontrar esses aromas no presente é sempre uma viagem prazerosa e emocionante. Dá saudade, sempre.

Por Juliana Dias – jornalista e pesquisadora na área de comida, cultura e comunicação.
Fotos: Pexel

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