Mais perguntas e menos respostas prontas

A última cidade percorrida na maratona de lançamento do “Comer Pra Quê? foi Recife, em Pernambuco, no dia 30 de maio

 

Em parceria com o Sesc, o evento aconteceu na unidade Casa Amarela, no bairro de Mangabeira. Segundo Amábela Avelar, coordenadora acadêmica do movimento, a ideia é oferecer conteúdo audiovisual com mais perguntas e menos respostas prontas quando o assunto é alimentação. Para contrapor um modelo de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) com caráter prescritivo, caracterizado por indicar o que comer e quando comer, essa maneira de dialogar com as juventudes busca construir uma relação horizontal.

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Por isso, atenta Amábela, os conteúdos não apresentam conceitos fechados. Os dez temas mobilizadores foram pensados para “puxar” uma conversa e, a partir, daí problematizar, aprofundar a discussão, seja numa sala de aula,  atividade cultural ou na mesa de um restaurante. “Buscamos compartilhar uma visão ampliada da alimentação para além da dimensão biológica, a partir do cotidiano de meninos e meninas com idades entre 15 a 24 anos. Essa foi uma inspiração importante. As ações de EAN do movimento foram baseadas no diálogo, sem hierarquizar, em busca da construção de conhecimentos coletivos, com sotaques e regionalidades. É um conteúdo para provocar o debate ao identificar os olhares distintos sobre a alimentação, como por exemplo, a informação recorrente de que a comida orgânica é mais cara”, explicou a coordenadora.

Ronaldo Farias, de 20 anos, é um dos jovens participantes da primeira fase do projeto em 2014, que esteve no lançamento para conferir o resultado da ciranda de diálogos em quatro capitais brasileiras. O objetivo era conhecer os assuntos de maior interesse, com a finalidade de mobilizar na busca por práticas alimentares saudáveis e sustentáveis. Ronaldo compartilhou que tem divulgado o “Comer Pra Quê?” nas suas redes digitais e nas rodas de conversa. “Tenho autonomia para falar em nome desse movimento, do qual faço parte. Sugeri a uma nutricionista que participa do mesmo grupo religioso que o meu para fazermos um evento. Ela falará da parte da nutrição, e eu vou apresentar o os vídeos e provocar o debate”, afirmou. Ronaldo também faz parte do grupo de Jovens Comunicadores do Comer Pra Quê?. A ideia é que cada um crie seus próprios caminhos para divulgar pautas e temas que não têm tanto espaço nos grandes veículos de comunicação como jornais e TVs.

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Foi essa visão que Amábela compartilhou com mais de 50 instituições que atuam com jovens em Recife. A representante da Secretaria de Educação de Olinda, Maria da Conceição, destacou que o  ‘Comer pra quê?’  remete às mulheres, que sabem transformar o alimento vital em energia para cada um de nós. “O alimento já tem o medicamento. Não precisamos de remédios para comer. A alimentação tira o jovem do marasmo, da ideia de que ele não é nada e, baseado nisso, se entrega à Cracolândia. Devemos e podemos resgatá-los pelo alimento. Comer pra quê? é também pensar em quem vai comer. A cozinheira tem um papel fundamental para resgatar os cardápios ancestrais que não dependia de remédios”, declarou.

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Na segunda parte  do encontro, Elliz Mangabeira, membro da equipe técnica, conduziu o bate-papo com os jovens num auditório com cerca de 80 participantes. O tema da prosa foi publicidade e propaganda de alimentos. “Qual comercial que você se lembra? A publicidade influência suas práticas alimentares? Você costuma ler o rótulo? Já quis comprar um produto pela embalagem ou pelo brinde?”, perguntava Elliz. Aos poucos, a plateia se engajava na discussão comentando suas experiências. Depois de assistirem aos vídeos Come-se propaganda? e Meramente ilustrativa, todos foram convidados a produzir fanzines, uma mídia livre e alternativa. “Qual a mensagem que você quer comunicar sobre alimentação?”, provocou a mediadora.

Ivonilson dos Santos, de 16 anos, preparou seu primeiro fanzine. Ele conta que nem todos têm coragem de transmitir uma mensagem boa com o tema proposto, que é a relação entre comida e propaganda. “A gente não pode usar as pessoas como mercadoria e nem as obrigar a comprar nossa mercadoria”. Ivanilson defende que comida é direito. O jovem é aluno da Escola Dona Maria Teresa Corrêa, que fica no bairro Casa Amarela.

Anabelly Campos, de 25 anos, é educadora na ONG Casa da Mulher do Nordeste e já faz fanzines. “A gente consegue relacionar esse assunto com vários elementos sociais e culturais de nosso cotidiano, e  como os jovens são induzidos a ter uma alimentação voltada para o consumismo. As propagandas de cerveja e margarina vendem alguma coisa a mais que o produto. Na cerveja é o corpo feminino. Comer e se alimentar estão relacionados à sobrevivência de nossas relações afetivas e interações. A mídia impacta muito. O movimento vem nos atinar que nossas questões cotidianas podem ser problematizadas”, comentou a educadora.

De acordo com Pedro Luiz Queiroga, supervisor de Recreação do Sesc Casa Amarela, o evento mostrou uma dimensão maior do que é o comer, principalmente como posição política. Nós trabalhamos conteúdos de nutrição, mas essa abrangência ainda não tinha entrado no meu repertorio. Agora, podemos incorporar a temática com mais estratégias em nossas atividades”, afirma Pedro. Ladjane Carvalho, gerente executiva do Sesc, concorda e acrescenta: “foi gratificante receber a equipe do protejo, que veio para contribuir em todas as nossas ações. Com certeza iremos agregar em todas as ações realizadas em nossas unidades. Estão de parabéns pelo trabalho. Novos frutos vão surgir”.

A missão foi cumprida com êxito. Ao longo do trajeto, instituições, jovens e seus coletivos conheceram mais uma estratégia de mobilização para promover a Educação Alimentar e Nutricional por meio da arte e da comunicação. Agora, é semear a mensagem pelas redes virtuais, sociais e neuronais que comer é um ato político e que devemos lutar por sistemas mais justos, saudáveis e sustentáveis.

Por Juliana Dias

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