Protagonismo juvenil marca lançamento em SP

Sesc Carmo, no centro de São Paulo, abrigou o primeiro lançamento regional do “Comer pra quê?”

Comer pra quê? Foi com essa provocação que um grupo de docentes e pesquisadoras da Nutrição de universidades públicas do Rio de Janeiro iniciou em 2014 um movimento voltado para juventudes. A proposta é colocar essa pergunta na conversa de meninos e meninas com idades entre 15 a 24 anos.

O dia 23 de maio deu início a uma nova etapa dessa tarefa de polinizar nas redes a tal pergunta que não quer calar. O Sesc Carmo, no centro de São Paulo, abrigou o primeiro lançamento regional do “Comer pra quê?” com a presença de cerca de 70 parceiros e 50 jovens de diferentes coletivos e organizações, com a Agência Jovem, a Pastoral da Terra e Arrastão.

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À frente dessa articulação estão Amábela Cordeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Taís Salema, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), coordenadoras acadêmicas do projeto Alimentação como ação política: promoção da alimentação adequada e sustentável para jovens, que gerou essa mobilização.

Ao longo de três anos de diálogos com jovens, coletivos e parceiros estratégicos, o grupo percorreu as cidades de São Paulo, Porto Alegre e Recife, além do Rio de Janeiro, com a intrigante questão: qual o sentido do comer?. Nessa conversa plural, horizontal e em rede, os interlocutores mapearam dez temas para mobilizar e engajar pessoas em busca de caminhos para um sistema alimentar justo, saudável e sustentável.

Amábela abriu o encontro com a voz embargada, compartilhando a emoção de retornar às cidades onde foram realizados os grupos de diálogos com os jovens. A coordenadora explicou aos parceiros presentes que a equipe técnica, formada por nove integrantes, construiu a base para articulação do movimento em prol da comida como ação política.

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Para cada assunto foram desenvolvidos conteúdos audiovisuais como estratégia de mobilização e comunicação. A ideia é que o movimento siga abrindo vias para o diálogo, de forma orgânica, no boca a boca. Com isso, sua aposta é que as instituições, os jovens e seus coletivos se engajem nesse diálogo, construindo e ampliando as redes para que o tema tenha alcance com o maior número de jovens possíveis.

“É importante o engajamento das instituições, pois estamos tratando de um assunto intersetorial. Por isso é fundamental a apropriação dos conteúdos pelos jovens e suas organizações como potencializadores desta pauta, mediadores e comunicadores”.

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Dentre as novidades apresentadas no lançamento está o aplicativo “Comer pra quê?” com jogos, agenda de eventos e quizz.

“O projeto foi muito bem sucedido ao fazer ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) para o público jovem. Levar os temas da Segurança Alimentar e Nutricional tem uma importância tremenda, pois eles se preocupam com o modo de preparo, como fazer e o tempo que têm disponível para comer. Isso faz com que eles tomem decisões mais práticas e menos saudáveis”, destaca Carla Mota, representante do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA).

Carla considera importante lançar luz para um novo sistema alimentar, os novos circuitos de abastecimento e produção e  de uma alimentação saudável na mesa.

Edgar Amaral, membro do Agentes de Pastoral Negros do Brasil, que tem representação no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), destacou o papel da mídia na influência das práticas alimentares. De acordo com Amaral, o movimento tem o mérito de mostrar o protagonismo juvenil dentro do tema. “O jovem não é só um receptor de informação, mas sim um interlocutor”, sinaliza. O Consea, atento a essa preocupação, iniciou a nova gestão em 2017 com duas cadeiras para a juventude. “Nada melhor do que o jovem falar com o outro jovem e eles mesmo se representarem”, afirma.

Sebastiana Regina, chefe do departamento de Saúde e Alimentação do SESC Nacional também concorda com essa opinião e afirma que o movimento atende uma demanda em que várias instituições estão em busca de se comunicar com os jovens. “Essa maneira apresentada pelo ‘Comer pra quê?’ é muito interessante e vem de encontro com o trabalho histórico do Sesc no caminho da alimentação, da nutrição e da EAN e do combate à obesidade. Nós trabalhamos com crianças e hoje estamos conhecendo as possibilidades de atuar com outra faixa etária. É um movimento para a gente se engajar em prol da comida de qualidade e com saúde, pois este é um tema transversal”, conclui.

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Arte, política e mobilização

A segunda parte do evento foi dedicada aos jovens. A apresentação do movimento e a criação de fanzines foi mediada por Elliz Celestrini, membro da equipe técnica. Os fanzines são informativos alternativos criados artesanalmente. O assunto proposto foi sobre a publicidade de alimentos. Em meio às conversas, Elliz exibiu os vídeos “Come-se propaganda?” e “Meramente ilustrativa”. Depois de explicar a ideia geral dos zines, a garotada colocou a mão na massa, numa mesa guarnecida com tesoura, cola, tecidos e muitos recortes de revistas para inspirar a comunicação.

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João Paulo Lima, de 24 anos, é estudante de psicologia e ator, e conta que o jovem não leva tem tempo para pensar como a comida é feita. “Se tivéssemos acesso à informação, acho que muita coisa a gente não comia”, afirma. Seu fanzine teve como tema a cochonilha. O inseto, primo do besouro, é utilizado como corante “cor carmim” na indústria alimentícia e de cosméticos. “Utilizam a palavra ‘natural’ só porque vem de um animal, mas não contam como é o processo”, explica João. Para se conseguir cerca de meio quilo de corante é necessário matar, em média, 70 mil insetos.

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Gabriela Ferreira, de 20 anos, participa da Pastoral da Juventude. Segundo ela, o movimento é interessante para conscientizar os jovens no seu dia a dia. “Pensar sobre alimentação no cotidiano, na relação com a publicidade e estimular  uma comunicação alternativa são passos em direção às mudanças nos hábitos alimentares”.  No entanto, ela chama atenção para perguntar também “comer o quê?”,  estimulando a reflexão sobre a origem dos alimentos. Gabriela lança uma provocação: “Enquanto coletivo, qual o nosso manifesto?” Seu fanzine foi um manifesto em favor do pequeno agricultor, e os que perderam sua terra para o latifundiário. “Comer pra quê? Se o que o camponês planta, não pode comer, não tem acesso. Eu coloquei no fanzine a perspectiva do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Não que seja uma solução, mas pelo menos vai ter um tempo e um prato de comida. Comer é um ato político”, finaliza.

O zineiro Jhonilton Vieira de Souza, de 26 anos, faz parte do Sarau Comics e de coletivos que organizam eventos e batalhas de Rap. Desde os 16 anos ele cria zines e conta que no movimento punk, do qual também participa, esta maneira de comunicar é uma prioridade para transmitir suas ideias. “Zine não é só uma didática. Você não está só ensinando. Também está aprendendo. É horizontal: todo mundo aprende e ensina ao mesmo tempo”, explica. Jhonilton diz que a internet tem se tornado um espaço de superficialidades e fazer zines é uma via para voltar às origens e escrever as mensagens no papel.  E essa volta às raízes também está presente na alimentação. Um dos temas mobilizadores desenvolvido pelos jovens é “Comida como patrimônio”.

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Educação, saúde e alimentação

Para Mariana Meireles, assistente técnica da gerência de Saúde e Alimentação do SESC SP, o projeto é inspirador para quem atua com educação e saúde. Essas estratégias vêm reforçar a importância de trabalhar o tema alimentação com a abrangência cultural, política,  econômica e biológica de forma multidisciplinar com os jovens.

Karina Amendola, nutricionista do Departamento Nacional de Saúde e Alimentação do SESC,  pontua que o movimento pode contribuir para a melhoria dos hábitos alimentares dos jovens. “Observamos que eles precisam dessas informações, gostam da discussão e contribuem para melhorar de forma ampla quando vão questionar não só o alimento que está posto, de onde vem, qual o tipo de plantação, se é transgênico, se tem corante ou acidulante, se faz bem para a saúde. Na medida em que eles vão entendendo o que o componente alimentar pode causar em sua saúde. O movimento esclarece para a população jovem a importância de consumir alimentos adequados e saudáveis e pode auxiliar esse público a se tornar adultos críticos em relação a alimentação e serem multiplicadores”, compartilhar Karina.

A comida pode ser uma das vias para pensar e transformar realidades por estar está indissociavelmente ligada às dimensões  social, cultural, biológica, afetiva, ecológica, econômica e política.  

Confira mais imagens desse encontro e a cobertura pelo Facebook e Instagram.

Por Juliana Dias

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