Alimentação e produção audiovisual

O curta-metragem Raiz foi o vencedor do concurso audiovisual “Food 2.0 – Futuro saudável de alimentos: uma visão dos jovens do Rio e de Londres”.  O filme retrata o percurso da tapioca vendida na popular barraca de Dani França, moradora da Nova Holanda, comunidade que pertence ao Complexo da Maré. A produção é assinada por Janaina Melo, de 25 anos, profissional de Relações Públicas e moradora do Complexo da Maré; Fernando Fonseca, de 26, publicitário, produtor cultural e morador de Nova Iguaçu; e Valnei Succo, de 28, músico (MC) e técnico audiovisual, que vive em Rocha Miranda.

O curta é um dos desdobramentos de um projeto que envolve pesquisadores brasileiros e britânicos, coordenado pela Coppe – o Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – e pela Royal Holloway, da Universidade de Londres. O projeto, que também contou com a participação das ONGs britânicas Inspire e Ovalhouse, recebeu o apoio da FAPERJ por meio do programa Fundo Newton RCUK-FAPERJ, além da parceria com o Observatório de Favelas e com a Universidade das Quebradas – projeto de extensão coordenado pela pesquisadora Heloisa Buarque de Holanda, na UFRJ.

A ideia foi desenvolver, simultaneamente, nas capitais britânica e fluminense, uma metodologia de aproximação com esses jovens de periferia, por meio de diálogos sobre alimentação e produção audiovisual. “O Food 2.0 surgiu como desdobramento de um projeto anterior da Coppe, realizado em parceria com a Royal Holloway, em 2013, sobre a importância do consumo consciente e das compras públicas como um caminho para o desenvolvimento. A partir daí, a questão da alimentação começou a aparecer em uma discussão sobre o uso da agricultura familiar no fornecimento de alimentos para a merenda escolar no Brasil”, conta Bartholo, que é coordenador do Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social na Coppe.

No total, participaram do projeto 18 jovens cariocas, de 18 a 29 anos. Um dos pré-requisitos para concorrer era ser morador de uma das comunidades cariocas. Durante um mês, eles tiveram oficinas temáticas sobre alimentação, além de acompanhamento em produção multimídia, na sede do Observatório de Favelas, na Maré. Foi o suficiente para revelar novos talentos. “As oficinas abordaram quatro temas: Cultura alimentar na periferia; Desperdício de alimentos; Agricultura urbana e horta comunitária; e Novas formas de produção e consumo na periferia, que trata das inovações sociais dos moradores, como restaurante orgânico e produção de cerveja artesanal”, diz a pesquisadora associada do Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social, da Coppe, Rita Afonso, que também é professora da Faculdade de Administração da UFRJ e foi uma das coordenadoras-adjuntas do projeto das oficinas.

A experiência resultou na produção de seis filmes pelos alunos, que captaram a visão dos jovens que moram na periferia sobre como é a relação deles com os alimentos e como será a alimentação do futuro. Segundo Rita, é preciso ter um olhar um pouco mais verdadeiro a respeito da situação das periferias e favelas. “Um clichê é imaginar a desnutrição como um problema nas favelas, quando na verdade o principal desafio é o avanço da obesidade como problema de saúde. Come-se muito mal, tanto no Rio como em Londres. O fato de viver em um país mais rico não garante uma boa alimentação”, destaca.

O trio vencedor passou uma semana em Londres, de 9 a 16 de outubro, onde visitou restaurantes, mercados e feiras para conhecer a cultura alimentar das periferias da cidade. “Foi um intercâmbio cultural entre as periferias do Rio e de Londres”, diz o professor Roberto Bartholo, coordenador do projeto na Coppe. No outro lado do Atlântico, no Reino Unido, a coordenação do projeto fica sob a responsabilidade de Dorothea Kleine, na Universidade de Londres.

o filme Raiz teve sua primeira exibição internacional em outubro, quando os realizadores – Janaina, Fernando e Succo – viajaram ao Reino Unido para acompanhar sua exibição por lá. “Queríamos falar sobre o lugar de onde a gente veio: da favela. Como o tema era a relação da periferia com a alimentação sustentável, falamos sobre a tapioca da Dani, que é muito conhecida na Nova Holanda. A mandioca é cultivada no sítio da família dela, no distrito de Suruí, localizado no município de Magé. A barraca da Dani fica no principal acesso de entrada e saída da Nova Holanda, na Avenida Brasil. Descobrimos que o produto dela era orgânico e resultado de um processo sustentável. Isso chamou a nossa atenção. Nem a própria Dani sabia o significado da palavra sustentável, nem a família dela, que vive disso”, conta Janaina.

O movimento Comer pra quê? também aposta na produção audiovisual para dialogar e mobilizar a juventude a respeito do tema alimentação como um ato político. Visite nosso canal no Youtube e conheça os dez vídeos produzidos pela ONG Bem TV , que atua com comunicação e educação para a juventude. Os vídeos foram protagonizados pelos jovens que participaram dos diálogos em quatro capitais brasileiras.

Notícia publicada no site da Faperj

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