Filme-carta: encontro do cinema com a literatura

Trocar correspondências que não seja por e-mail parece uma prática ultrapassada para a Geração Y, também conhecida como Geração da Internet, nascida no início dos anos 80

 Em contrapartida, o fazer artesanal, o descobrir e participar dos processos de produção de atividades cotidianas – como a alimentação, as artes e a moda – vem sendo resgatados pelos mais jovens. Escrever cartas a mão, confeccionar fanzines, fazer stencil, costurar, bordar, pintar e cozinhar proporcionam uma descoberta com os modos artesanais de pensar e fazer, contrastando com o modo industrializado e mecanizado de realizar essas tarefas.

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O Encontro Criativo de Cinema, organizado pelo “Comer Pra Quê”,  foi mediado pelo cineasta Geraldo Pereira, durante os meses de abril e maio.   Participaram do evento cerca de 40 jovens, em duas turmas com carga horária de 16 horas. As aulas foram realizadas na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Instituto de Nutrição da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Geraldo já trabalhou em produções como Babilônia 2000”, “Edifício Master” e na série “Cultura Ponto a Ponto”. Os participantes criaram filmes-carta, um encontro do cinema com a literatura, que combina a antiga forma de correspondência com as novas tecnologias digitais. As experimentações audiovisuais, feitas com o próprio celular, serviram para pensar o comer de forma crítica, convidando outras pessoas a refletirem sobre a alimentação de hoje.

De acordo com mediador, a ideia do filme-carta surgiu entre cineastas que utilizaram o vídeo para se corresponder. O primeiro de que se tem notícia é Lettre de Sibérie, de Chris Marker, produzido na década de 50.  Ele explica que a carta deve ser escrita a mão, em primeira pessoa  e lida em voz alta. A expectativa, segundo Geraldo, é que o destinatário se corresponda com o remetente. Anakelly, de 21 anos, é estudante de nutrição da Universidade Veiga de Almeida e faz estágio na Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), atuando na área de Saúde do Trabalhador. “Achei a proposta uma forma interessante de conscientizar e promover a reflexão”. Sua carta foi endereçada aos estagiários e bolsistas da fundação. Louise Mota, de 22 anos, também estuda na mesma universidade e escreveu para o namorado Thomas que mora em São Paulo. Segundo ela, o rapaz não se alimenta bem. “É uma forma mais fácil de chamar a atenção para um assunto, pois trabalha com imagens e não é tão formal”.

A estudante Ana Carolina Moraes, de 22 anos, faz o mesmo curso, e estagia na Secretaria de Saúde do município de Caxias. Seu destinatário foi a linha de trens SuperVia. A jovem comentou sobre sua preocupação com a comercialização  de comida congelada, sem refrigeração adequada, e pede para que a empresa atente para esse comércio, que pode ser prejudicial à saúde de seus usuários. Já Rafaela Rique, de 23 anos, é cineasta e se interessou pela temática da alimentação. Seu filme-carta intitulado Sabor de Infância foi escrito para avó, recordando as memórias de infância ligadas à comida e aos lugares que frequentavam juntas.

Cezar Migliorin, professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF), explica que dois aspectos relativos à tecnologia do cinema devem ser destacados na realização dos filmes-cartas:  a liberdade e problematização dos padrões da indústria; e a dimensão social das tecnologias. No Encontro Criativo, o objetivo foi problematizar a alimentação moderna. O professor explica que, com filme-carta, não há filme mal acabado, pelo menos não por carências técnicas, o que é libertador. O pesquisador descreveu e analisou esta opção audiovisual como um dispositivo pedagógico no artigo O ensino do cinema e a experiência do filme-carta. Para conhecer os remetentes e destinatários das correspondências fílmicas do “Comer Pra Quê?”, acesse a página do Youtube do movimento. E você, para quem escreveria uma carta filmada?

Por Juliana Dias

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